Ss 2006

Eles não usam "black-tie" de Gianfrancesco Guarnieri

Escrita há mais de cinquenta anos, a peça de Gianfrancesco Guarnieri, com a temática do individual versus coletivo, não perde em atualidade.

O Rio de Janeiro que Guarnieri nos mostra não é um Rio de turistas, da garota de Ipanema, do Sambódramo, do futebol. Ele mostra a vida cotidiana em uma favela e as mudanças ocorridas pela influência da cidade e o deslumbre (ilusório?) que ela causa sobre os que "não usam black-tie".

Nós somos convidados a encarar o problema do ponto de vista de Tião, que por já ter morado na cidade, não consegue se readaptar à vida na favela e entra aos poucos em conflito com sua família e com seus amigos, por não partilharem dos mesmos ideais. Quando Maria, a namorada de Tião, conta-lhe que está grávida, ele acredita que seu dever agora é lutar a todo custo por condições melhores para si e para sua nova família. Arriscar seu emprego na greve em que seu pai está envolvido lhe parece irresponsável diante da tarefa de ter agora esposa e filho. Seu pai e quase todos os outros moradores da favela acreditam, no entanto, que a felicidade individual deve ser primeiramente sacrificada em favor de um bem maior, coletivo, pois só assim os problemas poderiam ser efetivamente resolvidos. A greve organizada na fábrica onde Tião, seu pai e seus amigos trabalham é o estopim para toda a problemática.

A cena final e o golpe sofrido por Juvêncio, outro morador da favela, que compôs a música que dá título à peça, é a triste reticência deixada pelo autor, insinuando já o caminho difícil e o sistema injusto em que Tião optou por viver.

Os Quasilusos apresentam nesse semestre um Rio de Janeiro muito diferente do que foi mostrado no semestre de inverno, habitada por malandros espirituosos e prostitutas cantantes. Obras escritas em épocas diferentes, por autores vindos de berços muito distintos, a " Ópera do Malandro " e " Eles não usam black-tie" podem, em sua diversidade, servir para complementar a compreensão da grande colcha de retalhos que compõe a sociedade carioca.

"Nosso amor è mais gostoso,
nossa saudade dura mais
nosso abraço mais apertado
nós não usa as "bleque-tais".
 
Minhas juras são mais juras
Meus carinhos mais carinhoso
Tuas mãos são mãos mais puras,
Teu jeito é mais jeitoso…
Nós se gosta muito mais,
Nós não usa as "bleque-tais"…"